Qual o contrato do seu relacionamento? Uma reflexão sobre relações não monogâmicas e o que podemos aprender com elas - Terapeuta de Casal
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Qual o contrato do seu relacionamento? Uma reflexão sobre relações não monogâmicas e o que podemos aprender com elas

Qual o contrato do seu relacionamento? Uma reflexão sobre relações não monogâmicas e o que podemos aprender com elas

por Tatiana Perez - CRP 07/26032

Maria amava. Amava um, amava dois, amava quantos o seu sentimento de amor permitisse. Amava amores. E não achava justo ter que escolher um, já que eram todos tão diferentes e ela não tinha uma máquina de medir o tamanho do amor por cada um. Suspeitava, inclusive, que se esta existisse provavelmente as medidas seriam muito semelhantes, senão iguais. Achava injusto medir amor e se perguntava por que as pessoas a pressionavam tanto para escolher um único amor se ninguém a perguntava qual de seus amigos ela amava mais, por exemplo. Amava todos, de diferentes maneiras. Entendia o amor como um sentimento e, como tal, não achava justo destiná-lo única e exclusivamente a uma pessoa.

Durante algum tempo Maria se perguntava se tinha algo de errado com ela. As pessoas diziam que desde a adolescência não conseguia manter nenhum namoro, pois tinha dificuldade em ser fiel. Ela, por sua vez, achava que tinha algo estranho com o contrato de fidelidade que as relações amorosas ofereciam. Outros diziam que ela tinha dificuldade em manter vínculos. Mas e todos os amigos e todo o carinho que tinha pelas pessoas próximas? Um dia, Maria leu um artigo na internet sobre poliamor e relações não monogâmicas e entendeu que aquilo que todos nomeavam como dificuldade era, na verdade, a sua forma de amar. 

Você sabe o que são relações não monogâmicas?

Você conhece algum tipo de relação não monogâmica com consentimento dos envolvidos? Já ouviu falar em poliamor? E relações livres? Ou relacionamento aberto? Ou talvez, ainda, swing? Algum destes termos lhe é conhecido? Mas antes de explicar o que são relações não monogâmicas, quero lhe fazer outras perguntas. 

Você lembra quando aprendeu que deveria escolher somente uma pessoa para ter um relacionamento amoroso? Quando aprendeu que deveria encontrar a metade da sua laranja, unir-se a ela e viver feliz para sempre "até que a morte os separe"? Quando aprendeu que para a vida ser completa era preciso encontrar o seu par, a parte que lhe falta? Acho engraçado. Quando eu leio estas perguntas enquanto escrevo, a minha resposta automática é "desde sempre!". Lembro de aprender pelos contos de fada desde pequena, pelos modelos de casais da minha família e pelo que me ensinaram na escola, na TV, nas revistas, etc. 

Pois é... Acontece que na vida real não precisa ser assim. Pode ser, se você acha legal e se identifica com esta ideia. Mas não precisa ser. Pode ser diferente. E é aí que entra o poliamor e as demais relações não monogâmicas.

As relações não monogâmicas trazem a possibilidade de se ter vários amores, ao mesmo tempo, com o mesmo nível de importância ou não. Apontam o entendimento que o amor deve ser o centro das relações afetivas, que o amor é livre e, portanto, não pode ser forçado, direcionado ou impedido de ser sentido. Defendem, assim, que é possível e válido manter relações íntimas e/ou sexuais com múltiplos parceiros (as) simultaneamente. 

Mas poliamor, relações abertas, relações livres, swing são a mesma coisa?

Não, os termos acima mencionados não são todos a mesma coisa, porém tem algo em comum: a não monogamia - relacionamentos que não se restringem a duas pessoas. O que muda em cada termo é o contrato da relação e, uma vez que os contratos íntimos são realizados entre parceiros (as), podem apresentar configurações diversas. Entenda algumas destas configurações e como estão sendo nomeadas atualmente:

  • Relação Aberta: Casal que permite a existência de relação com outras pessoas. As relações externas geralmente são sexuais e não afetivas, ocorrendo longe da presença do outro. 
  • Swing: Casal monogâmico que tem relações sexuais juntos com outro casal. Evitam relações afetivas, restringindo-se ao sexo entre casais.
  • Poliamor: Relações afetivas com duas ou mais pessoas simultaneamente, com o consentimento de todos. São definidas regras entre os envolvidos e todos devem concordar com elas. Algumas das configurações poliamorosas mais comuns são:
  • Casamento em grupo ou Polifidelidade: Quando todos os membros da relação têm relações amorosas entre si e não se relacionam com pessoas de fora do grupo.
  • Interconectados: Quando cada pessoa tem relacionamentos distintos. Ou seja, as pessoas tem diversos namorados, sendo que os de um não são do outro.
  • Mono/Poli: Relacionamento em que uma pessoa é poliamorista e outra monogâmica. O poliamorista mantém relacionamentos paralelos, enquanto o monogâmico tem só um parceiro.
  • Relação Livre: Não prevê acordos ou regras entre os envolvidos, pois entende que seriam cláusulas limitadoras à autonomia da pessoa. A pessoa é livre para se relacionar com quem quiser como quiser e não deve satisfação a ninguém.

Independente da configuração (quantas pessoas envolvidas e qual o contrato entre elas), os termos são importantes para nomear e dar visibilidade a relações que não se encaixam nas formas tradicionais de amar. Ou seja, para nomear e visibilizar as relações não monogâmicas. Além disso, todas nós podemos aprender muito com os questionamentos que elas trazem e com o novo olhar para o amor que elas propõem.

O que qualquer mulher pode aprender com a não monogamia?

A verdade é que, independente se você é monogâmica ou não, todo relacionamento tem contrato. Sim, contrato. E cada contrato será diferente. Olhar para as relações não monogâmicas mostra a importância de tornar este contrato consciente para qualquer relação. Pessoas que vivem relações não monogâmicas costumam dialogar muito mais sobre o que é aceito ou não na relação. Acreditam que através do diálogo e dos acordos diminuem o risco de colocar o outro em uma situação abusiva ou tóxica e ajudam a emparelhar as expectativas no relacionamento. 

Se você está em um relacionamento: tem clareza qual é o contrato deste? Você já parou para pensar o que significa fidelidade no seu relacionamento? E infidelidade? E respeito, amor, companheirismo, parceria? E como vocês definem a responsabilidade de cada um nas tarefas diárias, sejam domésticas, financeiras ou de outra ordem? 

Todo casal constrói o seu contrato na medida em que o relacionamento vai evoluindo. O problema é que nem todos tem consciência do que foi acordado e nem sempre este contrato é construído em conjunto. Muitos casais em conflito, após avaliarem a relação, percebem que vivem juntos em contratos diferentes. 

Por exemplo, Laura e João após mais de quinze anos juntos, ao refletirem sobre o conceito de família, perceberam que para Laura a prioridade eram os filhos, enquanto para João a prioridade era o casal. Este não seria um problema se ambos soubessem o que era prioridade para o outro e vivessem juntos conscientes disto. A questão é que, durante anos, o casal viveu em conflitos por imaginar que o outro também priorizava aquilo que era sua prioridade. Laura esperava que João priorizasse os filhos. João esperava que Laura priorizasse o casal. E assim viviam em brigas estilo pingue-pongue, um querendo ganhar do outro. Quando entenderam que viviam em contratos diferentes, puderam reavaliar e refletir qual seria o melhor contrato para os dois, um que valorizasse tanto os filhos quanto o casal.

Este tipo de confusão é comum em relacionamentos, pois as pessoas com quem dividimos nossa intimidade são aquelas com quem temos relações mais complexas. Com elas dividimos a nossa vida cotidiana e tudo que ela envolve. E junto com isso compartilhamos o amor um pelo outro e tudo que a manutenção de um relacionamento envolve, como confiança, respeito, admiração, etc. Não existe uma fórmula que enquadre todas as relações amorosas e formas de amar. Amar é construção. E construção exige diálogo, algo que nem sempre é fácil na vida conjugal, mas é muito possível.

Por fim...

O que ficou desta leitura para você? Qual reflexão você fez enquanto lia este texto? A ideia aqui não é defender que você deve ter relações não monogâmicas. E sim que você possa aprender com elas, independente de como você se sente com relação à monogamia ou não monogamia. É lembrar que todas somos livres para amar quem queremos e como queremos. E que podemos nos relacionar com quem quisermos e como quisermos, desde que internamente estejamos de acordo com isto. E os acordos não servem para limitar o relacionamento. Servem sim para esclarecer, fortalecer, tornar consciente, e deixar todos os envolvidos em sintonia, sejam dois, três, quatro ou quantos vierem a ser.

Tatiana Perez

Psicóloga CRP 07/26032 com Especialização em Terapia Sistêmico-Cognitivo de Famílias e Casais. Tem como missão auxiliar pessoas e casais a descobrirem e se conectarem com sua forma de amar. Hoje realiza sua missão através dos atendimentos clínicos online a adultos e casais e também através da capacitação Ser Terapeuta de Casal que educa e empodera psicólogas no atendimento com casais. Luta por um mundo em que a diversidade seja reconhecida para que todos possam receber atenção, acolhimento e atendimento qualificado. Idealizadora deste site de indicações e supervisora das psicólogas/os nele cadastradas/os.